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Você está em:Home»Cultura árabe»Oásis, cultura e pessoas tornam o Cariri mais marroquino
Cultura árabe

Oásis, cultura e pessoas tornam o Cariri mais marroquino

O patrimônio da Chapada do Araripe, no Cariri, é objeto de estudo da pesquisadora marroquina Nabila Jebbouri. Ela colaborou com instituições brasileiras pelo reconhecimento do local pela Unesco.

Por Thais Sousa/ANBA

Oásis, cultura e os próprios moradores tornam o sertão do Cariri um lugar mais marroquino. Essa é a análise de Nabila Jebbouri, pesquisadora do Marrocos que atua na área de patrimônio cultural e desenvolvimento humano. Aos 28 anos, ela trabalha atualmente na ponte aérea entre o Marrocos e a região do Cariri, no estado brasileiro do Ceará.

Doutoranda pela Universidade Hassan II de Casablanca, ela já estudava dois dos elementos que viria a reconhecer no Brasil. Um deles, o oásis de sua região natal. O outro, um festival marroquino em torno da chamada Batalha dos Três Reis. A batalha aconteceu em 1578, no norte do Marrocos, e acabou com o desaparecimento de Dom Sebastião, rei de Portugal.

A pesquisadora descobriu que a história, parte da cultura marroquina, chegou ao Brasil e, no Nordeste, influenciou o movimento sebastianista – que acreditava no retorno de Dom Sebastião como esperança de melhoria na condição de vida do povo. “Eu não sabia que se falava sobre a Batalha dos Três Reis no Brasil. Quando fiz uma palestra em Portugal, conheci Alemberg Quindins, presidente da Fundação Casa Grande, do Ceará, que me contou que aqui também havia um festival sobre a batalha, e eu vim conhecer”, contou ela, que veio ao Brasil pesquisar o tema à convite da Fundação.

Em 2019, a marroquina veio pela primeira vez ao Brasil e conheceu a festa tradicional de São José do Belmonte, em Pernambuco. A partir daí, Jebbouri decidiu estudar as relações mais profundas entre o Cariri e o que ela já conhecia e estudava no Marrocos, incluindo a cultura e o oásis que ela viria a conhecer em meio ao sertão nordestino.

Oásis de tâmara ou de mandioca

Ao adentrar no Cariri, a marroquina se deparou com a Chapada do Araripe. A área abriga uma floresta nacional, uma Área de Proteção Ambiental e um geoparque. Todo aquele ambiente no meio da caatinga trouxe à Jebbouri a lembrança de Figuig. A cidade fica próxima ao norte do deserto do Saara, situada no oásis das tamareiras. “Fiz uma pesquisa sobre o oásis na minha cidade. E isso é parecido com o que há no Brasil. Também vejo em todo lugar a influência árabe. Na arquitetura, nas festas, no design das roupas das pessoas”, explicou ela.

A pesquisadora Nabila Jebbouri, na exposição “Batalha dos Três Reis”, produzida com a artista Isabel Gomide, que trazia legendas em árabe e português, e trouxe as relações entre o Cariri e o Marrocos. O evento foi financiado pelo Serviço Social do Comércio-Sesc, com apoio da Fundação Casa Grande.

Instigada pelas semelhanças que encontrou, Nabila Jebbouri foi uma das participantes no I Seminário Internacional de Patrimônio da Humanidade da Chapada do Araripe, abordando o diálogo entre os oásis do sertão e do deserto. O evento foi realizado pelo Governo do Estado do Ceará, através de sua Secretaria de Cultura, Fundação Casa Grande, a Universidade Regional do Cariri (Urca), Geopark Araripe e a Fecomércio do Ceará. Além da cultura e natureza, o modo de vida da população local também foi peça relevante do quebra-cabeças árabe-brasileiro formado pela pesquisadora. “Uma coisa que me chamou muito atenção é como as pessoas fazem essa gestão da água. Como as pessoas vivem, plantam. Existe mais do que a lei do governo, há a lei dos locais, eles fazem essa gestão dos recursos”, apontou Jebbouri.

Se no Marrocos ela já havia encontrado este fator humano em sua pesquisa, no Brasil a gestão da água também tomou seu espaço. “Tem uma zona seca nos dois locais, e um oásis, mas as pessoas sabem como viver. Eu já vi as potencialidades deles, a potencialidade das mulheres e como elas lidam com a situação”, declarou.

Para ela, o modo como as mulheres atuam na região do Cariri é outra afinidade com o que acontece no Marrocos. “Se no Brasil, elas multiplicam os produtos a partir do cultivo da mandioca, por exemplo, transformando-a em tapioca, farinha e tantos outros derivados, no oásis no Marrocos, nós temos as tâmaras. E as mulheres fazem de tudo com esse produto também, como mel e doces”, contou.

Os estudos de Jebbouri em colaboração com a equipe de pesquisa da Urca formam um estudo prévio usado para solicitar a inscrição da Chapada do Araripe na lista indicativa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A análise servirá, então, para posteriormente, candidatar o local à Patrimônio da Humanidade Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O seminário do qual ela participou foi a primeira etapa para o reconhecimento, que incluirá ainda um dossiê descrevendo o local e suas riquezas. “O processo é para desenvolvimento social e econômico deles e da região. Quando turistas forem lá, vão valorizar mais a cultura e, assim, as pessoas que vivem na região não precisão sair de lá para trabalhar fora”, lembrou a pesquisadora.

Próximos passos

Jebbouri está, agora, de volta ao Marrocos trabalhando para concretizar um convênio entre sua universidade e a Urca, no Brasil. A distância entre os países é uma das barreiras, mas não impede a possibilidade de parcerias. “É comum fazer convênios com Espanha, Portugal e França, por exemplo. Mas eu quero que tenham mais convênios com o Brasil. Já voltei ao Marrocos com muitas ideias!”, revelou.

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